A Rua Direita, principal artéria comercial de Ouro Preto desde o século XVIII, é hoje um corredor de lojas de souvenir e restaurantes turísticos. Mas nos sobrados de janelas verdes e portas de madeira escura vivem famílias cuja presença remonta à época do ciclo do ouro — e cujas casas funcionam como arquivos privados de uma história que a cidade oficial prefere romantizar.
Helena Drummond, 67 anos, é a quinta geração de sua família a morar no número 142 da Rua Direita. O casarão, construído em 1785 por um comerciante de ouro português, passou por reformas, incêndios e uma tentativa de demolição nos anos 1970, quando o governo mineiro cogitou abrir uma avenida no centro histórico. «Meu avô encadeou-se à porta principal. Literalmente. Passou três dias ali até a imprensa chegar», conta Helena, servindo café em xícaras de porcelana que pertenceram à bisavó.
Arquivos domésticos
O que mais impressiona visitantes autorizados — o acesso é restrito e mediado por projeto cultural local — não é a arquitetura, mas o acervo. Gavetas repletas de cartas trocadas entre minas de ouro nos séculos XVIII e XIX, álbuns de fotografia do início do século XX, instrumentos musicais artesanais e um diário de bordo de viagem à Europa em 1892 escrito por mulher, raridade para a época.
O historiador Pedro Machado, da Universidade Federal de Ouro Preto, lidera um projeto de catalogação voluntária desses acervos privados. «Estamos falando de um patrimônio documental imenso, disperso em dezenas de casas, que complementa — e muitas vezes contradiz — a narrativa oficial da Inconfidência e do barroco mineiro», explica.
Em outra casa, na Ladeira João de Paiva, a família Noronha preserva um conjunto de esculturas em madeira feitas por escravizados que trabalharam na propriedade original. As peças, de valor inestimável, nunca foram expostas publicamente. «Minha mãe dizia que expor seria expor a dor de outros. Preferimos cuidar em silêncio», diz José Noronha, 52 anos.
O dilema da preservação
Manter um casarão histórico no centro de Ouro Preto é caro. Infiltrações, telhados de laje colonial que exigem madeira específica, impostos sobre imóveis tombados — a lista de despesas assusta herdeiros que muitas vezes vivem de profissões modestas. Vários sobrados foram vendidos a investidores nos últimos anos e transformados em pousadas de luxo, com perda parcial de acervos familiares.
Um grupo de moradores criou, em 2024, a Associação de Proprietários do Centro Histórico, que negocia com o município isenções fiscais em troca de abertura parcial das casas para visitação educativa. O modelo inspira-se em experiências portuguesas de turismo de habitação histórica.
Histórias que não estão nos livros
Camila Ribeiro passou três semanas em Ouro Preto ouvindo moradores. O que mais a marcou foram as histórias pequenas: a receita de doce de leite que atravessou cinco gerações, o piano alemão que sobreviveu a um desabamento, a porta secreta que dava acesso a um túnel rumo à antiga mina da família.
«Ouro Preto é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1980, mas o patrimônio vivo — as pessoas que ainda moram aqui e guardam essas memórias — recebe pouquíssima atenção», afirma a repórter. «Nossa reportagem é um convite a olhar além das fachadas douradas e perguntar: quem mora aqui, e o que essa pessoa sabe que o resto do Brasil ignorou?»
O projeto de catalogação de acervos privados aceita voluntários com formação em história, arquivologia ou museologia. Informações pelo e-mail [email protected].