A exposição «Uxi thëpë — O que os espíritos veem», aberta em maio no Museu de Arte de São Paulo, reúne 47 obras de 12 artistas do povo Yanomami, provenientes de comunidades nos estados do Amazonas e de Roraima. O título, em língua yanomami, faz referência à visão espiritual que permeia cada traço de urucum e carvão sobre fibras de buriti.
O que torna a mostra historicamente relevante não é apenas a qualidade estética das peças — embora ela seja inegável —, mas a estrutura de poder que a sustenta. Diferentemente de exposições anteriores sobre arte indígena, nesta os curadores são os próprios artistas, acompanhados por uma equipe de mediação formada por jovens indígenas formados em gestão cultural.
Do etnográfico ao autoral
Durante décadas, museus brasileiros trataram arte indígena como categoria etnográfica: peças expostas ao lado de utensílios domésticos, rotuladas com nome de etnia e data de coleta, raramente com o nome do artista. A mudança de paradigma começou timidamente nos anos 2000, ganhou força com a Bienal de São Paulo de 2016 e agora parece consolidada com iniciativas como a de MASP.
Claudia Andujar, fotógrafa suíça naturalizada brasileira cuja obra documentou o povo Yanomami por mais de meio século, participa da mostra como convidada — mas não como protagonista. «Fico feliz em ver que o centro da sala agora pertence a quem sempre deveria ter estado lá», disse ela na abertura.
Watoriki, de 38 anos, é um dos artistas em destaque. Suas composições em grande formato — algumas com mais de três metros de largura — retratam cenas do xapiripë, os espíritos da floresta que, na cosmologia yanomami, habitam o mundo visível apenas para xamãs. «Quando pinto, não estou ilustrando uma crença. Estou traduzindo uma experiência que vivi», explica.
Questões de mercado e circulação
A entrada da arte indígena contemporânea no circuito comercial gerou debates acalorados. Críticos apontam o risco de apropriação e a desconexão entre o valor de mercado das obras e os benefícios para as comunidades de origem. A mostra do MASP adotou um modelo de repartição de receitas: 60% do valor de venda de cada obra retorna diretamente à aldeia do artista, administrado por associação comunitária.
Para a antropóloga Ailton Krenak, que participou de mesa redonda na abertura, a questão vai além da economia: «Estamos testemunhando o momento em que povos que foram sistematicamente silenciados reivindicam o direito de definir o que é arte — e o que é cultura — em seus próprios termos.»
Mediando o encontro
O programa educativo da exposição inclui visitas guiadas em português e yanomami, oficinas de pintura com pigmentos naturais e debates sobre preservação ambiental. Escolas públicas da zona leste de São Paulo já agendaram mais de 80 visitas para o segundo semestre.
Rafael Costa, que acompanha o circuito de arte contemporânea há 15 anos, vê na mostra um marco: «Não se trata de um gesto assistencialista de inclusão. Trata-se de reconhecer que a arte brasileira sempre foi, em sua essência, plurais — e que os museus demoraram demais para refletir essa verdade em suas programações.»
A exposição «Uxi thëpë» permanece em cartaz até setembro de 2026. Entrada gratuita às terças-feiras.