A Rua das Laranjeiras guarda um segredo que passa despercebido pela maioria dos turistas: sob camadas de tinta e poeira, azulejos portugueses do século XVIII ainda contam histórias de comércio, escravidão e resistência cultural. O projeto de restauração, liderado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em parceria com artesãos locais, começou quando uma infiltração ameaçou desmoronar um painel inteiro na fachada de um sobrado amarelo.

Marcos Vieira, restaurador com 30 anos de experiência, explica que o trabalho vai muito além da estética. «Estamos lidando com material que atravessou o Atlântico em porões de navios negreiros, que decorou casas de senhores de engenho e que, depois, passou a fazer parte da paisagem visual de uma comunidade negra que ressignificou o centro histórico», diz ele, enquanto remove delicadamente uma camada de gesso com espátula de madeira.

Camadas de tempo

Os azulejos encontrados na Rua das Laranjeiras pertencem a pelo menos três períodos distintos. Os mais antigos, datados de 1750 a 1780, exibem padrões geométricos típicos da produção lisboeta. Um segundo conjunto, do início do século XIX, traz cenas pastoris e motivos florais que refletem a moda burguesa da época. Já os azulejos do final do século XIX, provavelmente fabricados em fábricas portuguesas já industrializadas, mostram sinais de produção em massa — menos detalhe, mais repetição.

A restauradora Ana Lúcia Santos, doutora em história da arte pela Universidade Federal da Bahia, coordena a pesquisa documental do projeto. Segundo ela, a presença de azulejos em edificações do Pelourinho não é mera decoração: «Era um símbolo de status, uma forma de afirmar conexão com a metrópole portuguesa. Mas quando essas casas passaram a abrigar famílias negras após a abolição, os azulejos ganharam outro sentido — tornaram-se parte do patrimônio afetivo de uma comunidade que a história oficial tentou invisibilizar.»

A ciência por trás da restauração

O processo de recuperação segue protocolos internacionais adaptados ao clima tropical. Cada azulejo é fotografado, catalogado e submetido a análise de composição química antes de qualquer intervenção. A umidade relativa do ar em Salvador — frequentemente acima de 80% — exige tratamentos específicos contra fungos e salinização, problema crônico em edificações próximas à Baía de Todos os Santos.

Peças irrecuperáveis são reproduzidas em oficina parceira em Santo Amaro da Purificação, onde ceramistas locais aprenderam técnicas de replicação histórica. A decisão de reproduzir, em vez de substituir por material moderno, foi tomada em audiência pública com moradores do bairro. «Preferimos uma cópia honesta a um azulejo industrial que não conversa com a história do lugar», afirmou o presidente da associação de moradores.

Memória viva

Dona Conceição, aos 74 anos, mora na Rua das Laranjeiras desde a infância. Ela lembra quando, nos anos 1960, o governo ameaçou demolir parte do bairro para construir uma via expressa. «Minha mãe colou azulejo quebrado na parede do quintal para guardar. Dizia que aquilo era herança da vó, que veio de Portugal. Hoje eu sei que a história é mais complicada — e mais bonita — do que ela imaginava.»

O projeto prevê a conclusão das obras em março de 2027, com inauguração de uma rota de visitação guiada por moradores treinados como mediadores culturais. A expectativa é que os azulejos restaurados se tornem não apenas atração turística, mas ferramenta pedagógica para escolas públicas de Salvador.

Para Marina Alves, que acompanha obras de patrimônio há duas décadas, o caso de Salvador ilustra uma verdade maior sobre o Brasil: «Nosso patrimônio não está apenas nos museus. Está nas paredes que passamos todos os dias, esperando alguém parar e perguntar: de onde veio isso, e o que significa para quem mora aqui?»